Hidrelétrica de Furnas de Bike

Em um único e proveitoso dia, conhecemos de bike a Pedreira Lagoa Azul, o Mirante do Canion e dada a proximidade, não poderíamos deixar de conhecer a famosa Hidrelétrica de Furnas, pena que seu nome ultimamente e infelizmente anda associada ao noticiário Político-Policial com a chamada a Lista de Furnas, em que constam nomes de conhecidos políticos suspeitos de corrupção e que envolve esta importante usina de energia elétrica.

A entrada para visitação é franca e sem restrições, e é muito bela a vista  de cima do gigantesco lago de furnas ou “mar de furnas” como também é chamado, pois banha 34 municípios mineiros. Vale a pena conhecer, assim como toda estrutura da Hidrelétrica e as belezas do seu entorno, pois é um lugar único em que o lago de Furnas encontra com a Serra da Canastra.

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A barragem está localizada no curso médio do rio Grande, no trecho denominado “Corredeiras das Furnas”, entre os municípios de São José da Barra e São João Batista do Glória, em Minas Gerais.

Sua construção começou em julho de 1958, tendo a primeira unidade entrado em operação em setembro de 1963 e a sexta, em julho de 1965. No início da década de 70, foi iniciada sua ampliação para a instalação das sétima e oitava unidades, totalizando 1.216 MW, o que colocou a obra entre uma das maiores da América Latina. A localização privilegiada da usina (500 km do Rio de Janeiro, 400 km de São Paulo e 300 km de Belo Horizonte) permitiu que se evitasse, em meados da década de 60, um grande colapso energético no Brasil, evitando o racionamento e o corte no fornecimento de energia elétrica ao parque industrial brasileiro. A potência prevista no início de sua construção correspondia a 1/3 do total instalado no Brasil. A Usina de Furnas, além de se constituir em um marco de instalação de grandes hidrelétricas no Brasil, possibilitou a regularização do rio Grande e a construção de mais oito usinas, aproveitando, integralmente, um potencial de mais de 6.000 MW instalados.

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DADOS TÉCNICOS:

BARRAGEM:

Tipo: enrocamento com núcleo de argila
Altura máxima: 127 m
Desenvolvimento no coroamento: 554 m
Largura no coroamento: 15 m
Elevação no coroamento: 772 m
Volume total: 9.450.000 m³

RESERVATÓRIO:

Extensão máxima: 220 km
Nível normal de operação: 768 m
Nível de máxima cheia (Nível máximo maximorum): 769,30 m
Nível de desapropriação: 769 m
Nível mínimo de operação: 750 m
Área inundada: 1.440 km²
Volume total: 22,95 bilhões m³
Volume útil: 17,217 bilhões m³

ESTRUTURA DE CONCRETO:
TOMADA D’ÁGUA:

Comportas:
Tipo – vagão
Quantidade – 8
Altura d’água sobre a soleira – 33,5 m
Dimensões:
largura – 4,7 m
altura – 9,7 m
Fabricantes: Rheinstahl/M.A.N.(R.F. da Alemanha)

VERTEDOURO:

Descarga Máxima: 13.000 m³/s
Comportas:
Tipo – segmento
Quantidade – 7
Dimensões:
largura – 11,5 m
altura – 15,8 m
raio – 14,1 m
Fabricante: HIH (Japão)

CASA DE FORÇA:

Tipo: coberta
Dimensão: 186 m x 28 m
Unidades geradoras:
quantidade – 8
rotação: 150 rpm
potência nominal: 152 MW
Turbinas:
Tipo – Francis de eixo vertical
Diâmetro do rotor – 4,485 m
Fabricantes:
1 a 6 (Nohab/Suécia)
7 e 8 (Nohab/Suécia e Bardella/Brasil)
Geradores:
Freqüência – 60 Hz
Tensão nos terminais: 15 kV
Fabricantes:
1 a 6 (Siemens/R.F.Alemanha)
7 a 8 (CGE/Canadá e MEP/Brasil)
Transformadores: 26 (operação mais reserva)
Tipo – monofásico
Capacidade total em operação – 1.279,92 MVA
Relação de transformação: 15/345 kV
Fabricantes: Fabricantes: GE (USA) / Jeumont Schneider (França)

Rudi Arena

Fonte: http://www.furnas.com.br/hotsites/sistemafurnas/usina_hidr_furnas.asp

 

Um Canal que Faltava na Região

A região de Marília, incluindo Garça e os municípios próximos contam agora com um importante canal de vídeos, trata-se do canal do Youtube do Professor Elândio Ferreira que com propriedade presta um serviço quase que de utilidade pública para a educação ambiental e histórica de nossa região. Segue o link do referido canal que merece mais do que uma espiada:

https://www.youtube.com/channel/UCnhPVoqlzQOWqNlL9rorwmw

Entre muitos vídeos interessantes, tem esta espécie de documentário sobre a companhia inglesa com riqueza de imagens, detalhes e informações, vale a pena conferir. Assim como os outros vídeos do canal que vem a complementar com narração alguns lugares por onde o Piramba já passou.

Rudi Arena

 

 

Um Patrimônio Histórico em Ruína. Até Quando Esperar?

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Recentemente fomos de bike até a Igreja da Companhia Inglesa, e o que vimos é preocupante, um patrimônio histórico, cultural e arquitetônico a espera de seu fim anunciado, que não deve tardar em chegar. Se permanecer o abandono, o desabamento de sua frágil estrutura é questão de tempo e infelizmente não temos notícia de que algo está sendo feito para evitar o pior. A degradação de um patrimônio histórico é triste, mas a sua perda, é irreparável, por isso, urge que as autoridades competentes tomem alguma medida para a preservação e quem sabe a sua restauração.

Não dá pra se conformar com este fim, pois o lugar tem uma história tão rica e a igreja traços arquitetônicos tão belos, cujo valor é impossível estimar em dinheiro. Não há nada pague a preservação do passado, da história, do valor artístico da arquitetura, além de ser um lugar que fez parte da vida de milhares de moradores que passaram pela da Fazenda São João ou Fazenda dos Ingleses. Foram os áureos tempos, e hoje virou um abrigo para pássaros e morcegos, mas que ainda assim, atrai muitos visitantes, o que demonstra o potencial que lugar tem para atrair um turismo histórico-cultural.

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Esta peculiar e bela igreja preenche todos os requisitos para que o imóvel seja tombado como patrimônio histórico e arquitetônico, mas isso não garante a sua restauração, apenas proíbe que seja demolido ou descaracterizado. A igreja está localizada em Gália-SP, portanto, as autoridades locais poderiam envidar esforços para ao menos o seu tombamento, o investimento na restauração dificilmente o município de Gália arcaria, ainda mais em tempo de crise, mas com a iniciativa do tombamento, o próximo passo seria buscar recursos estaduais ou federais para a restauração. Seria interessante uma hipotética cooperação entre as prefeituras de Gália-SP e Garça-SP, ambas poderiam se beneficiar com a iniciativa, e quem sabe a Igreja Católica não poderia contribuir também com algo, ou restará a sociedade civil se organizar para isto?

De qualquer forma, é preciso ser realista, não há saída simples para este caso, é uma corrida contra o tempo, e este é inexorável, não perdoa nada e nem ninguém. O primeiro passo deveria ser o seu tombamento, mesmo que seja um processo demorado e burocrático, mas com o reconhecimento público e oficial de seu valor, ficaria mais fácil angariar e convencer da necessidade de se investir na restauração do templo católico, antes que seja tarde demais ou ainda mais custoso.
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Como é possível ver nas fotos tiradas há alguns dias atrás, a fachada da igreja está com uma enorme rachadura de ponta a ponta, e por dentro, o teto está cheio de aberturas e escorado por estacas de forma precária, as paredes próximas ao altar também possuem grandes rachaduras, a escada interna de madeira está em frangalhos, e todos os belos e coloridos vitrais da igreja estão quebrados.

Se sonharmos um pouco, ali poderia voltar quem sabe a ser uma linda igreja, onde pudessem ser celebradas cerimônias religiosas para a comunidade da região, ou então uma espécie de museu para resgatar a rica memória da Companhia Inglesa e da Fazenda São João. Ou será que teremos que nos conformar em assistir passivamente a sua progressiva deterioração até a definitiva perda deste inestimável patrimônio de nossa história?

Rudi Arena

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COMPANHIA INGLESA – MEMÓRIAS DA FAZENDA SÃO JOÃO (1944/1954) por Hamilton Carvalho

Fomos brindados com um relato primoroso e histórico sobre a vida na Fazenda São João (Gália-SP), mas também conhecida como Fazenda do Ingleses, maior que muitas cidades, ela deixou um relevante e belo patrimônio histórico que é a famosa Igreja construída para comunidade da época e que hoje é um ponto quase que turístico, e que atraí as atenções de muitas pessoas. Segue na íntegra o texto que o Sr. Hamilton Carvalho que teve a gentileza de nos enviar, e cujas riquezas de detalhes, inclusive com fotos da época, contribui muito para a reconstituição e memória deste importante momento da história de nossa região, que até hoje desperta muito interesse das pessoas que ali viveram e vivenciaram momentos relevantes de suas vidas.

“Em 1924, um grupo de investidores ingleses criou uma companhia em Londres com o objetivo de implantar um empreendimento agrícola no Brasil. A empresa recebeu a denominação legal de “BRASIL WARRANT”.
Na época, no Brasil, o café era rei. Assim, a cultura de escolha seria uma fazenda de café.
A empresa brasileira, subsidiaria da Brasil Warrant, foi denominada “Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá”, pois a área escolhida para sua implantação, no município de Gália, SP, era perto das nascentes do rio Tibiriçá.
A fazenda foi denominada SÃO JOÃO, mas era também conhecida pelo nome de “INGLESA”, ou “FAZENDA DOS INGLESES” ou “AGRÍCOLA” devido à sua origem e ao seu nome legal.
Sob qualquer ponto de vista, a Fazenda era um portento. Era uma vila, quase uma cidade, chegou a ter 3.000 residentes e, mesmo hoje, 50 anos depois, teria mais habitantes que 40 municípios atuais do Estado de São Paulo.

A Fazenda tinha uma área de 2.500 alqueires, isto é, 6.250 hectares e três milhões de pés de café. Além disso, era uma grande produtora de algodão. Produzia sementes selecionadas de algodão e milho em convênio com a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. Era também um empreendimento industrial, pois chegou a ter fábrica de fio de seda, fábrica de pinga, fábrica de cal, serraria, fábrica de farinha de mandioca e moinho de milho para a produção de fubá. Dispunha de caminhões e maquinário agrícola o mais moderno da época, inclusive contratava aviões tipo teco-teco para pulverização de inseticida nas lavouras de café. Na estação ferroviária de Gália dispunha de um desvio com terminal próprio para embarque de café, sem interferir no tráfego ferroviário normal. Embarcava por ano, diretamente para o exterior, cerca de 50.000 sacas de café despolpado, trabalho executado pelos escritórios da Brasil Warrant em Santos. O café era despolpado (retirado da casca) nas instalações da própria Fazenda.

Devido ao seu tamanho era dividida em secções para melhor administração – a Sede onde ficava o escritório e a administração geral, Ipiranga, Boa Vista, Água Limpa, Aliança e Mascarenhas, cada um com o seu administrador. Havia um sistema telefônico próprio ligando todos os pontos da administração. Havia apenas um telefone que permitia interurbanos e ficava no escritório da Sede.
Para suporte desta população havia cinema, açougue, armazém de secos e molhados, loja de tecidos, igreja, bar, escola até a quarta série do ensino fundamental, farmácia, posto de gasolina, campo de futebol e oficina própria. Um médico, contratado pela Fazenda, vinha semanalmente de Gália e dava consultas na Fazenda. Uma empresa adiante do seu tempo, pois já naquela época oferecia assistência médica gratuita para seus funcionários.
Os administradores eram todos ingleses, contratados pela BRASIL WARRANT diretamente em Londres. Normalmente eram quatro – um diretor geral, o gerente financeiro, um gerente administrativo e um engenheiro agrônomo. Atravessam o oceano Atlântico, aprendiam português com forte sotaque e constituíam uma sociedade à parte do restante da Fazenda.
De fato, a sociedade da Fazenda era como que dividida em classes, embora ninguém precisasse explicar as regras para qualquer novo residente. Era implícito. As áreas de residência eram completamente separadas bem como o padrão das casas que eram totalmente diferentes.

Os ingleses moravam em casas soberbas, em área relativamente afastada, com enormes jardins de desenho e padrão inglês. Todas as casas dos ingleses tinham lareiras ainda que estivéssemos em um país de clima tropical e, ao invés de chuveiros, tinham banheiras. A água quente vinha do aquecimento do fogão – todas as casas tinham fogão à lenha – a chaminé do fogão era envolvida por uma serpentina que aquecia a água. Era um sistema equivalente ao aquecimento solar, só que o calor vinha do fogão ao invés do sol. Se não se cozinhasse, não haveria água quente para o banho. A casa do gerente geral lembrava uma casa de campo como se vê nas fotografias inglesas com um jardim onde havia um lago para peixes, luxo impensável em qualquer residência nos anos de 1940. Havia uma piscina privativa e uma quadra de tênis onde só eles jogavam. As famílias inglesas se reuniam entre si nos fins de semana para nadar, jogar tênis e beber wiskey. Não havia interação com as demais famílias brasileiras. Além disso, eram os únicos que tinham carros particulares quando todo mundo andava a pé.
A segunda classe social era o pessoal do escritório, administração, farmacêutico e professores da escola primária. Moravam em casas confortáveis com jardim e grandes quintais. Dispunham de água encanada e energia elétrica grátis, mas ninguém tinha telefone ou carro. Seriam talvez umas dez ou quinze famílias que também só se reuniam entre si em aniversários e reuniões. Não interagiam socialmente com os ingleses, nem com os demais residentes da fazenda.

A terceira classe eram os trabalhadores rurais, mecânicos, carpinteiros, operadores das fábricas. Moravam em conjunto de casas, algumas de alvenaria outras de madeira, conhecidas como “colônias”, sem jardins, mas com água encanada e energia elétrica grátis. A vida social desta classe girava em torno do bar, do cinema, do clube de futebol e da igreja.
O cinema passava filmes aos sábados e domingos somente. O preço da entrada era quase simbólico e todos iam religiosamente ao cinema (os que moravam na Sede, obviamente). O preço da entrada era o mesmo, mas as classes sociais eram rigorosamente divididas dentro do salão em si. Cada um sabia o seu lugar.
À direita do salão havia uma espécie de plataforma (“foyer”) por onde se subia por alguns degraus e onde havia cadeiras comuns. A segunda classe invariavelmente subia para a plataforma e assistia ao filme do alto, com a visão desimpedida.
No restante do salão, parte maior no piso do chão, ficavam bancos de madeira, divididos em três colunas, onde cabiam seis ou sete pessoas, onde ficavam os demais assistentes. Evidentemente, não havia impedimento em violar a regra não escrita, mas, só ocasionalmente, pessoas desciam da plataforma para o salão, nunca o contrário.

E os ingleses? Bem, os ingleses tinham uma plateia no alto, isolada, no fundo do cinema, completamente separada do resto do salão. Chegavam em seus carros, entravam por uma porta lateral privativa – a projeção não começava sem que eles chegassem. Mas eles eram extremamente pontuais, de modo que a projeção começava sempre no horário marcado. Não havia a hipótese de ocupar uma cadeira na plateia privativa dos ingleses.
Apesar de tudo, não havia qualquer ressentimento. Este modo de vida era aceito normalmente como era assim que devia ser a vida.
O cinema só tinha uma máquina de projeção, de modo que, quando acabava um rolo, acendiam-se as luzes por alguns minutos até que o operador instalasse o rolo seguinte e reiniciasse a projeção. Acordava as crianças que dormiam espalhadas pelas cadeiras, pois todas as crianças iam juntas com os pais. Não havia filmes proibidos para menores de idade. Ia-se ao cinema e pronto.
A projeção era normalmente dividida em partes – um jornal semanal (um ancestral do Jornal Nacional com notícias políticas e de esporte), um trailer dos filmes que seriam apresentados nas próximas semanas e podia haver ou não um desenho animado do Popeye – quando havia era uma festa para a criançada. Era o equivalente aos vídeos games de hoje e durava não mais que uns seis ou sete minutos por semana. Seguia-se o filme em si. Ao término da projeção, os ingleses voltavam para suas casas nos seus carros e os demais punham o pé na estrada, no escuro, pois só havia apenas alguns postes de iluminação a cada 100 metros com uma pequena lâmpada. Por isso, todos tinham lanterna para iluminar o caminho de volta.

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Casa padrão do pessoal da administração. Na frente um jardim e atrás um amplo quintal.

A escola era um prédio de tijolo vermelho próximo da igreja. Tinha quatro salas de aula, mais salas de administração e dos professores. Era rodeada por uma cerca de balaustres pretos com uma ponta branca. Tudo muito caprichado. Nos fundos deste pátio havia o campo de futebol da Fazenda onde, os meninos, jogavam futebol diariamente durante o recreio fizesse sol ou chuva. Acabado o recreio, voltava-se à sala de aula suados e sujos, ninguém nunca se incomodou.

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Grupo Escolar da Fazenda São João. Pode-se observar as traves do campo de futebol atrás da escola onde jogava-se futebol durante o recreio. Foto de 1992.

No recreio era servida uma sopa como lanche. Tudo fornecido gratuitamente pela administração da Fazenda. Era uma mesa grande onde eram colocados previamente pratos de metal com a sopa antes do recreio – assim, a sopa já estava fria quando os alunos chegavam e podia ser tomada rapidamente para podermos ir jogar futebol – a segunda rodada era tirada do caldeirão que estava no fogo e vinha fervendo. Precisava ser esfriada, o que nos fazia perder preciosos minutos do futebol do recreio. A cada começo de ano havia uma disputa entre os meninos para pegar a carteira mais próxima da porta de sala para permitir chegar mais rápido à mesa de sopa com a rodada fria – os meninos do fundo da sala não tinham remédio – tinham de esfriar a sopa e perder parte do futebol.
As carteiras eram duplas – dois alunos para cada carteira. Sempre dois meninos ou duas meninas em cada carteira – nem pensar em menino e menina na mesma carteira. Os lugares, uma vez escolhidos no primeiro dia de aula, valiam para o ano inteiro.
Houve um professor inesquecível naquele mundo povoado de professoras. Professor Deoclécio Soave herói da molecada por jogar futebol e por ter uma motocicleta. Era baixinho, porém forte, e era o goleiro do São João Futebol Clube, o time da Fazenda. Era tão bom que chegou a jogar no Gália, disputando o campeonato amador do estado. Inicialmente ele morava na Fazenda, pois não havia transporte que lhe permitisse ir e voltar diariamente entre a Fazenda e Gália. Até que ele comprou uma moto que era a atração da molecada que nunca havia visto uma, o que lhe permitia vir e voltar diariamente para Gália onde residia.

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Time de futebol da Fazenda – Jogava-se costumeiramente contra as fazendas vizinhas. Santo Inácio, Chantebled, Paraíso e Vila Couto que passou a ser chamada de Alvilândia posteriormente. O time amador do Gália vinha jogar as vezes na Fazenda como treinamento. Nesta foto o goleiro não é o Prof. Deoclécio.

Pouquíssimos alunos iam de sapatos à escola – a grande maioria ia descalça, embora de um modo ou outro todos fossem de uniforme – camisa branca e calça curta com suspensórios para os meninos e saias para as meninas. Calças e saias igualmente azul marinho escuro. Exceto os filhos do pessoal do escritório e dos professores, praticamente todos iam à escola descalços.

Andar descalço tinha outra consequência chamada verminose. Uma vez por ano o Serviço Sanitário do Estado vinha à escola e obrigava todos os alunos a fazer exame de fezes para detecção de verminose. Nem precisava se dar ao trabalho, pois praticamente todos tinham detecção positiva. O remédio infalível para a verminose era uma colherada de óleo de erva de Santa Maria, um líquido amarelo, viscoso, a substância de gosto mais horroroso que conheci – acho que os vermes morriam de puro mal-estar. A gente ficava se sentido mal por um dia ou dois. O ritual repetia-se anualmente.

Havia na Fazenda dois tipos inesquecíveis:

O primeiro, Sr. Vieira, farmacêutico, casado com Dna. Maria José, professora no segundo ano na escola. O Sr. Vieira era viúvo e Dna. Maria José era seu segundo casamento. Não havia par mais desencontrado. Ela baixinha, gorducha, severa com fama de brava; ele alto, magro, rosto ossudo e folgazão. O Sr. Vieira não era de fato funcionário da Fazenda – a Fazenda lhe dava a moradia, por sinal uma bela casa, como um benefício adicional por manter a farmácia – era uma figura importante, pois era a única pessoa conhecida que tinha um diploma de curso superior. Na prática era o médico para o dia a dia das doenças mais comuns.

O segundo era o Sr. Pitcher. Era um diretor inglês. Nenhum dos brasileiros conseguia falar seu nome corretamente, que dirá com sotaque inglês. O seu apelido era Pitt e todos o chamavam por alguma coisa parecida com “Pitichi” com sotaque de paulista do interior. Ficou assim.
O mais interessante é que ele era um veterano da Primeira Guerra Mundial; convocado pelo exército inglês, lutou nas batalhas do norte da França contra os alemães em 1916 onde foi ferido – sofreu um ferimento na perna porém recuperou-se num hospital de campanha. No entanto, o ferimento o deixou com uma prótese no joelho que o obrigava a mancar. Como auxílio, usava uma bengala – além disso, fumava permanentemente um cachimbo, falando pelos cantos da boca, feito o marinheiro Popeye. Para os meninos, conhecer um veterano de guerra de verdade foi realmente inesquecível. Pouco depois da Primeira Guerra Mundial ele veio para o Brasil e, por volta de 1925, praticamente fora o fundador da Fazenda. Nela trabalhou por quase trinta anos. Após sua aposentadoria, foi morar em Garça. Nunca mais voltou para a Inglaterra.

Para os meninos a vida era a escola, o futebol, o cinema, pescar e perambular pela fazenda. Também se jogava muita bolinha de gude, que chamávamos de “búrica”, palavra que praticamente ninguém mais conhece. Seria um regionalismo?

No verão, no bosque de eucaliptos, capturávamos vagalumes cantando um refrão “vagalume tem-tem teu pai tá aqui tua mãe também”. Não sei se isto os convencia a vir até nós, mas que dava certo, dava. Colocávamos os vagalumes com sua luz verde em um vidro e o deixávamos no escuro, brilhando.
A Fazenda tinha um ritmo próprio durante a semana de segunda a sábado. A serraria, logo pela manhã, acionava uma espécie de buzina para indicar o início das atividades, depois à tarde para sinalizar o fim do dia. Passava o dia inteiro com o barulho das máquinas serrando madeira. Entretanto, no domingo, tudo se aquietava, um silêncio absoluto típico da área rural.

Havia dois eventos que sempre eram acontecimentos extraordinários.

O primeiro, algo que caiu em desuso, era propaganda com folhetos despejados por um pequeno monomotor feito de madeira e lona, que era conhecido como teco-teco. Ele sobrevoava a Fazenda lançando publicidade, na maioria das vezes das Casas Pernambucanas. Para a criançada que nunca havia visto um avião de perto era como se, hoje em dia, aparecesse uma nave espacial. Corríamos pelos pastos recolhendo quantos folhetos de publicidade pudéssemos, mas não sei para que, já que eram todos iguais.

O segundo era um sorveteiro que ocasionalmente vinha de Gália com umas caixas de sorvete picolé transportadas por uma caminhonete. As caixas vinham envoltas em palha de arroz para manter a temperatura e impedir que o sorvete derretesse. Quando o sorveteiro chegava à parte central da Fazenda, ele usava um megafone para se anunciar. Brotavam crianças como magia em questão de minutos; vinha gente de longe para tomar um picolé. Não havia escolha de sabores era só de pseudo groselha das mais vagabundas. Dava-se uma chupada no sorvete vermelho e só sobrava o gelo branco e descorado. Mas, maravilha das maravilhas, era gelado.

Como já disse, os ingleses tinham uma sociedade à parte. Entretanto, chegou uma família inglesa que tinha dois meninos em idade escolar. Aí, não havia outro jeito, os meninos tinham que frequentar a escola rural da fazenda, a única disponível. Dois ingleses no meio daquela criançada – era realmente um espaço democrático, pois todos iam à mesma escola qualquer que fosse o trabalho dos pais. Mas eles não perdiam a pose – chegavam de carro e, ao terminar a aula ao meio dia, lá estava o carro com o motorista esperando por eles. Para todos isto era absolutamente normal e aceitável nunca houve crítica ou ressentimento a respeito.

Para os moradores da fazenda, a Inglaterra sempre era uma referência. Durante a II Guerra Mundial todos torciam para que os aliados, Inglaterra inclusive, vencessem a guerra. O gerente geral, o Sr. Frazer tinha dois filhos jovens, um menino e uma menina. Não moravam na Fazenda, estudavam fora. Quando começou a guerra, eles, embora morando no Brasil, julgaram ser seu dever lutar pelo seu país natal. Foram para lá, a moça tornou-se enfermeira e o rapaz esteve nas forças armadas. Ambos sobreviveram e voltaram para o Brasil. Quando a guerra terminou em 1945 com a vitória dos aliados e, consequentemente, com a vitória da Inglaterra, em comemoração a Fazenda deu um salário extra para cada funcionário. Isto era extraordinário porque a existência do décimo terceiro salário só foi instituída quase vinte anos depois desse acontecimento.

A Fazenda tinha quase todas as facilidades de uma cidade, mas curiosamente, não tinha barbeiro e padaria. Cortar cabelo só indo à Gália, até que um senhor improvisou uma barbearia – só funcionava aos domingos porque nos demais dias da semana (trabalhava-se de segunda a sábado) ele tinha seu trabalho normal. A fila era enorme e durava o domingo inteiro, um martírio ficar esperando.

Como disse, não havia padaria na Fazenda. O costume era fazer pão em casa. Mas alguns tiveram a ideia de abrir uma conta em uma padaria de Gália – quem trazia o pão era a jardineira que fazia o trajeto diário de Ubirajara à Gália e vice-versa. Passava na Fazenda, na ida para Gália às oito horas da manhã quando a gente entregava um saco de pano onde seria embalado o pão. Retornava de Gália e passava na Fazenda às quatro da tarde. Os sacos de pão vinham no bagageiro que ficava no alto da jardineira. Para acessar o bagageiro, subia-se por uma escada na traseira da jardineira. O motorista subia lá em cima e atirava o saco de pão para o receptor – era preciso ser esperto para não deixá-lo cair. Caso se perdesse o horário da jardineira, que era um tanto irregular, o saco de pão ia até o fim da linha que era Ubirajara e voltava no dia seguinte, duro e seco.
Esta jardineira, caindo aos pedaços, era o único transporte disponível para ir à Gália onde ficava a estação de trem da Companhia Paulista. Apesar da distância da fazenda à Gália não ser mais do que uns quinze quilômetros, a jardineira demorava umas duas horas, pois parava onde tivesse gente para subir e descer, fora as tralhas que eram trazidas no bagageiro. As alternativas eram esperar uma carona de um carro de serviço da Fazenda ou telefonar para um taxi vir de Gália, o que era muito caro, raramente usado.

Mensalmente era necessário fazer-se os pagamentos dos funcionários das demais sub-sedes da fazenda. Ninguém tinha conta bancária, o pagamento era feito em dinheiro vivo. O escritório apurava o salário de cada funcionário, anotava os demonstrativos de salário e despesas e colocava o dinheiro devido em notas dentro de cada caderneta. As cadernetas com o dinheiro em notas eram colocadas em uma caixa de papelão, nem cofre havia e lá ia o contador da Fazenda em um carro cheio de dinheiro com apenas um motorista, sem carro forte, sem segurança armado, sem nada. O dia de pagamento era de conhecimento geral e nunca passou pela cabeça de ninguém que poderia haver um assalto – nem se cogitava disso. Em todos aqueles anos nunca houve nenhum incidente. Nos dias de hoje isto parece mentira, mas de fato, os tempos eram outros.

Entretanto, houve um evento que foi um espanto para todos nós. Havia um guarda-noturno que fazia a ronda pelos imóveis da Fazenda à noite. Ele usava um relógio circular guardado em uma bolsa de couro que tinha no seu interior uma folha de papel circular giratória. Ele devia acionar um botão de meia em meia hora e um mecanismo fazia uma marca no papel para provar que passara a noite acordado. Em anos e anos nunca havia acontecido nada. Entretanto, uma noite, um residente da fazenda, bêbado, perambulando sem rumo, foi abordado pelo guarda. As circunstâncias são obscuras, pois não houve testemunhas. Mas o guarda alegou que fora atacado e reagira dando dois tiros no atacante que caiu ferido junto a um muro de arrimo. No dia seguinte, foi um rebuliço na Fazenda. Os brasileiros, conhecendo como funcionava a justiça brasileira, sugeriram que o guarda fugisse para evitar o flagrante e depois se apresentasse à justiça alguns dias depois – neste caso responderia ao processo em liberdade. Os ingleses, estritamente legalistas, não concordaram, e quando a polícia chegou, o guarda foi preso e teve que responder ao processo detido na cadeia. A Fazenda continuou pagando seus salários pontualmente, mas quando julgado e inocentado, não quis continuar na Fazenda. Mudou-se para o Rio de Janeiro.
Os meninos, que só viam tiroteio nos filmes de bang-bang no cinema da Fazenda, passavam diariamente junto ao muro de arrimo para ver a mancha de sangue deixado pelo ferido, até que a chuva, lavando-a aos poucos, fez com que desaparecesse.

Apesar de todas as atividades econômicas da fazenda, tudo girava em torno do café, de longe o negócio principal. Havia o trato cultural o ano inteiro e a colheita começava em Maio e ia até Agosto. O café, depois de colhido, exige muito trato, pois não amadurece uniformemente, ao mesmo tempo – em um mesmo pé há grãos maduros e verdes. O ideal é colhê-lhos todos maduros, pois sua qualidade é melhor. Entretanto, se a colheita é muito retardada para esperar que todos amadureçam, muitos grãos caem no chão – se para evitar esta queda se colhe muito cedo, haverá uma grande porcentagem de verdes, também de qualidade inferior. A solução é colher na média. Assim, na colheita há uma mistura de grãos verdes e maduros que devem ser separados para se obter melhor qualidade.
Isto se faz com água, pois o grão verde flutua e o maduro afunda. A Fazenda tinha um enorme terreiro para o trato do café – na parte alta, os grãos eram despejados em tanques de água com duas saídas – a superior para o verde que flutua, a inferior para o maduro que afunda. Os grãos que escoavam com a água por meio de canaletas eram recolhidos por trabalhadores com carrinhos de mão e depositados em diferentes áreas do terreiro. A separação nunca era perfeita. No meio dos grãos maduros sempre havia alguns verdes – a fase seguinte era a separação manual dos verdes e maduros. Isto era feito por crianças filhos dos trabalhadores. Naquela época ninguém questionava o trabalho infantil. Afinal, todos iam à escola pela manhã e à tarde ganhavam um dinheiro extra para os pais.
Ganhava-se por litro de grãos verdes separados dos montes de café depositados do terreiro. Depois que o café secava no terreiro, ele era recolhido por pequenos vagões sobre trilhos puxados manualmente e despejados em uma tulha. O passo seguinte era ser despolpado para retirar a casca do grão que conhecemos. A casca tem a leveza e a consistência de palha seca. A máquina que fazia isto, após descascar os grãos de café, lançava um jato de palha em um galpão dia e noite formando uma montanha. Os caminhões entravam neste galpão e carregavam a palha para os cafezais para aproveitá-la como adubo.
Para os moleques, era uma diversão subir na montanha de palha que deslizava como se fosse uma mini avalanche. A montanha de palha ficava tão alta que alcançava as traves de madeira que sustentavam o telhado do galpão.
Praticamente todos as crianças tinham todas as doenças consideradas “de infância”, pois não havia vacina alguma para catapora, coqueluche, sarampo e caxumba. Vacina só existia para varíola e febre amarela. No entanto, as doenças mais comuns eram “dor de garganta” e conjuntivite, chamada então de “dor d´olhos”.
A conjuntivite, muito contagiosa, era uma verdadeira praga que, quando começava, se propagava feito incêndio em capim seco – o remédio era um colírio da marca “Moura Brasil”, um líquido amarelo que nossos pais pingavam à noite nos olhos antes de dormir. Aquilo ardia e a gente esperneava, o líquido amarelo se espalhava pelo rosto. Acordávamos na manhã seguinte com os olhos pregados e a cara amarela. A conjuntivite durava uns dois ou três dias e, sem desmerecer o colírio, penso que sarava por si mesma, naturalmente.
Dor de garganta era muito comum e o remédio infalível era a farmácia do Sr. Vieira. Ele enrolava um chumaço de algodão em uma espécie de vareta de vidro, mergulhava em uma tinta azul chamada azul de metileno e dava umas pinceladas no fundo da garganta. A ânsia de vomitar era imensa, saíamos da farmácia cuspindo tinta azul e os olhos lacrimejando. Mas sarava em vinte e quatro horas. Em caso de tosse, fazia-se uma mistura de óleo de cozinha, vinagre e sal e passava-se no peito, nariz e pescoço, tão quente quanto se podia aguentar. Em caso de dor de barriga e vômito o remédio era “Sal de fruta Eno” e água mineral “Prata”. Todas as mães tinham mania de dar fortificantes para os filhos – tomávamos “Biotônico Fontoura” ou “Calcigenol” durante anos, um xarope leitoso, de gosto intragável.
Muitos pais eram adeptos da Homeopatia. Eles compravam uma “mini farmácia” de remédios homeopáticos que vinham caprichosamente arrumados em um armário de madeira. Junto vinha uma brochura com a descrição das doenças mais comuns e o “receituário”. “Diagnosticavam” os sintomas e escolhiam o que ministrar da “farmácia”. Na prática mesmo, o mais comum era tomar “Aconitum” para vômito e “Alium Sativum” para febre.

No começo dos anos 1950 houve no mundo e no Brasil também um surto de paralisia infantil, doença aterrorizante para a qual não havia nenhum tratamento e nem vacina. Dr. Salk desenvolveria a vacina apenas alguns anos mais tarde. De algum modo, correu uma lenda que uma mistura de cravo da índia, cânfora, pimenta do reino, sal e, sei lá o que mais, colocados em um saquinho pendurado no pescoço evitaria a doença – parecia um tanto absurdo, mas que mãe se arriscaria a não tomar esta providência e ver seu filho com uma doença tão terrível. Todos passamos a andar com o saquinho de especiarias no pescoço dia e noite. Ficávamos com cheiro de comida temperada, mas lenda ou não, ninguém na Fazenda teve paralisia infantil. Quem sabe funcionava mesmo!

igreja
A Igreja da Fazenda – O cruzeiro dos capuchinhos está à direita – foto de 1992. Ao fundo casas do pessoal da administração que ficavam próximas do armazém, cinema e do bar.

A igreja católica da fazenda foi uma das primeiras construções, erigida por volta de 1930. Era toda de tijolo vermelho aparente. Não havia padre residente, apenas algumas senhoras se reuniam para rezar o terço. Ocasionalmente, em alguma data festiva, vinha um padre de Gália. Lembro-me deu um evento especial, provavelmente a visita de um bispo, quando os residentes da Fazenda prepararam uma recepção esmerada; comprou-se uma grande quantidade de rojões para saudar sua chegada. Colocou-se um vigia adiantado na estrada que chegava à Fazenda como aviso – assim que o carro do bispo passasse pelo vigia, ele deveria a soltar um rojão para dar a senha para iniciar o foguetório. Acontece que, ao passar um carro qualquer, o vigia se precipitou e julgou ser o bispo; soltou seu rojão de aviso e o foguetório começou – quando o visitante desconhecido chegou à igreja, ficou surpreso por receber tamanha manifestação de apreço. Não entendeu nada. Quando o bispo realmente chegou, não havia mais nenhum rojão disponível. Foi recebido em silêncio!
Uma ocasião, um grupo de frades capuchinhos veio fazer uma missão evangelizadora na Fazenda como se fosse um mutirão religioso – missa todo dia, batizados, primeira comunhão, crismas de todo aquele povo que tinha deixado de fazer estes sacramentos católicos no devido tempo. Toda noite havia uma procissão. Foi uma erupção de fervor religioso. Durou uma semana inteira e como lembrança do evento foi erigido um cruzeiro (uma cruz grande de madeira) no pátio de igreja. Quarenta anos depois visitei a Fazenda, o cruzeiro ainda estava lá e estava escrito “Lembrança da missão dos frades capuchinos, Agosto de 1951”.
A verdadeira festa religiosa e popular era o dia de São João, padroeiro da Fazenda. Na noite de São João, os vizinhos se reuniam em torno de uma fogueira preparada de antemão e se comia pipoca, amendoim, cocada e era um tal de soltar rojões que iluminavam o céu da Fazenda continuamente. Era uma festa caipira, dos caipiras mesmo – não se usava roupa de caipira, pois todos sendo caipiras usavam a própria roupa do dia a dia.

Havia uma brincadeira de criança chamada “Quaresma”. O nome já diz tudo, só acontecia na época da Quaresma que ia do fim do Carnaval e terminava na Semana Santa. Combinava-se a brincadeira com alguém, portanto eram duas pessoas na disputa, uma contra a outra. Quando os dois envolvidos se encontravam, um gritava para o outro “quaresma aí!”. Para não se perder um ponto era necessário mostrar uma folha verde e a disputa continuava por toda a Quaresma. Era difícil ter uma folha verde sempre à mão, mas existia uma planta, que dava uma pequena folha pouco maior que uma moeda. Esta folha tinha uma superfície felpuda, como se fosse de velcro, que aderia ao tecido da roupa – grudava-se a folha verde na roupa para a garantia de se ter sempre uma folha verde à mão e não ser pego de surpresa.

Todos que moravam na Fazenda tinham um único endereço: “Gália (SP), Caixa Postal 28”. Esta era a caixa postal da Fazenda no correio de Gália – os documentos legais da administração, os jornais dos assinantes, cartas e tudo o mais que vinha pelo correio era acumulado nesta caixa postal. Diariamente, um estafeta (o carteiro da Fazenda), podíamos chamar de correio, montado à cavalo, com dois sacos laterais, ia até Gália para trazer a correspondência acumulada. Chegava ao fim da tarde entregava tudo no escritório que então procedia à distribuição; não era necessário um endereço local, pois pelo nome todo mundo se conhecia e sabia onde morava.

A Fazenda nos dava mensalmente sete quilos de café em grão; aquilo era mais presente de grego do que beneficio, pois era uma trabalheira danada até obter o pó. Primeiro, era preciso ir buscar o café na tulha – em seguida era preciso escolher – examinar minuciosamente os grãos retirando os pretos, carunchados e impurezas – em seguida era preciso torrar. Fazia-se uma fogueira no quintal e se colocava os grãos de café despolpado em um cilindro que precisa ser rodado sobre o fogo para que os grãos torrassem por igual. Era de “torrar” a paciência até que o café ficasse no ponto por igual, sem contar o calor e a fumaça que a gente tinha de aguentar. Por último, era preciso moer os grãos torrados para obter o pó.

A Fazenda tinha criação de gado, mas não comercializava o leite; por isso, vendia leite para os empregados a preço simbólico, quase gratuito e na quantidade que se quisesse. Porém não havia distribuição – quem quisesse, precisava levantar cedo, ir até o local de ordenha para pegar o leite. Levantava-se no escuro e era necessário atravessar o terreiro de café e depois caminhar, talvez um quilômetro, por uma alameda de bambus até chegar ao local da ordenha.

Na fazenda éramos quase todos torcedores do São Paulo. Naquele ano de 1953, o São Paulo sagrou-se campeão paulista e o Noroeste de Bauru, subiu para a primeira divisão. A Federação Paulista, como homenagem ao Noroeste, programou o primeiro jogo do campeonato de 1954 entre Noroeste e São Paulo em Bauru. Praticamente ninguém da Fazenda já havia assistido a um jogo de futebol do campeonato principal – assim, decidiu-se organizar uma caravana para assistir ao jogo em Bauru. Emprestou-se um caminhão da Fazenda, saímos de madrugada para pegar o trem da Paulista por volta de oito horas em Gália – chegamos em Bauru às onze horas, o jogo começou à tarde, o São Paulo, para nossa alegria, ganhou por 1 x 0. Foi uma festa. Pegamos o trem de volta às 7 da noite para chegar à Gália às 10 horas da noite – daí foi pegar o caminhão, chegamos à Fazenda por volta de meia noite. Foi uma despedida. Poucos dias depois veio a notícia que a Fazenda havia sido vendida e seria liquidada com a dispensa de todos os seus empregados.

Aquilo foi um terremoto na vida das famílias, pois a maioria já estava na Fazenda há anos. Consta que os ingleses ficaram descontentes com uma lei editada no governo do presidente Getulio Vargas que estabelecia limites na remessa de lucros de companhias estrangeiras para suas matrizes no exterior. Decidiram, portanto, que o negócio não era mais viável e venderam a BRASIL WARRANT para o grupo Moreira Salles. Como a BRASIL WARRANT era a proprietária legal da fazenda, o grupo Moreira Salles passou a ser o novo proprietário.
Acontece que, o Sr. João Moreira Salles, presidente do grupo, não se interessou pela fazenda e a vendeu para a CAIC – Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização (CAIC), empresa paulista semi-estatal, cujo objetivo era o loteamento de pequenas propriedades, voltadas à policultura de mão de obra famíliar e imigrante.
A CAIC, como era sua função, decidiu encerrar o empreendimento e dividir a Fazenda em parcelas. Todos os funcionários foram demitidos, com todos os direitos trabalhistas rigorosamente cumpridos. E todos começaram a procuram uma alternativa para suas vidas.
Diariamente partiam caminhões com as mudanças. Um tempo se encerrava e outro começava. Hoje, a Fazenda só existe na memória dos que lá viveram, e já são tão poucos. Fica esta memória.

Nossos agradecimentos ao Sr. Hamilton Carvalho, cuja visita a este simplório blog nos deixou lisonjeado, ainda que não só contribuiu com seus comentários à uma postagem antiga sobre a Companhia Inglesa, como também entrou em contato conosco para aprofundar o assunto e se colocar a disposição de nos enviar mais detalhes, o que foi muito bem vindo.

E para sabermos como esta a Igreja encontra-se atualmente, registramos estes vídeos e fotos de maio de 2016. Também ficamos sabendo que existe agora um senhor que por coincidência o encontramos, ele é responsável pela manutenção dela e pelo jeito faz isto com muito carinho. Agora o interior da Igreja está bem mais limpo, assim como o seu entorno, o sonho deste senhor é vê-la um dia restaurada, e já sabe por onde é preciso começar, pelas portas e janelas, que estão em estado lamentáveis. Uma pena que este patrimônio de todos continua abandonado pelo poder público e se fosse restaurada, ela poderia se tornar um ponto turístico respeitável, se houvesse real interesse neste sentido, como não há, resta a um cidadão comum tentar com seus próprios esforços zelar por ela para que não se deteriore ainda mais.

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