Por que Garça é conhecida como “Sentinela do Planalto”?

Artigo de João Pedro Gusão – Geólogo.

Você já deve ter ouvido que a cidade de Garça é chamada de “Sentinela do Planalto”. Você sabe o motivo? A explicação mais comum é simples: o município está em uma posição mais elevada em relação às cidades vizinhas. Mas a pergunta mais interessante é: por que Garça está mais alta? A resposta está na geologia.

A geologia por trás da paisagem

A geologia é a ciência que estuda a Terra — sua formação, estrutura e os processos que moldam o planeta ao longo do tempo. É ela que nos permite entender como surgem as rochas, os solos, os relevos e até as águas subterrâneas. No caso de Garça, essa história começa há cerca de 70 a 80 milhões de anos, quando a região apresentava condições ambientais muito diferentes das atuais, além dos grandes dinossauros.

A Formação Marília: a base de Garça.

A cidade está assentada sobre rochas pertencentes à Formação Marília, integrante do Grupo Bauru. Durante o Cretáceo Superior, a região era dominada por um clima árido a semiárido, com rios temporários e lagos rasos que depositavam grandes quantidades de areia e cascalho. Com o passar do tempo, esses sedimentos foram soterrados e transformados em rochas sedimentares, como arenitos (formados por grãos de areia) e conglomerados (com fragmentos maiores, como pedrinhas).

Um “cimento natural” que endureceu as rochas.

O grande diferencial dessas rochas está no processo de cimentação natural. Em um clima seco, a água da chuva infiltrava no solo e evaporava rapidamente, deixando para trás minerais dissolvidos. Esse processo levou à formação de um “cimento” de calcita (carbonato de cálcio) entre os grãos de areia, preenchendo seus espaços e tornando a rocha muito mais resistente. Como resultado, os arenitos da Formação Marília apresentam alta dureza e maior resistência à erosão.

O que existe abaixo da Formação Marília?

Abaixo dessa camada mais resistente encontram-se também rochas sedimentares como as da Formação Vale do Rio do Peixe. Essa unidade se formou em um ambiente com maior disponibilidade de água e menor evaporação, o que resultou em menor concentração de carbonato e, consequentemente, menor cimentação. Por isso, essas rochas são mais frágeis e mais suscetíveis à erosão quando comparadas às da Formação Marília.

A origem das cachoeiras de Garça

Essa diferença de resistência entre essas camadas sedimentares explica a grande quantidade de cachoeiras presentes no município. Esse processo, conhecido como erosão diferencial, ocorre quando a água desgasta mais rapidamente as rochas menos resistentes, enquanto as mais duras permanecem. Com isso, formam-se desníveis no relevo, dando origem às quedas d’água. Com o tempo, a erosão continua atuando na base das cachoeiras, fazendo com que elas recuem gradualmente e remodelando a paisagem.

A explicação para a “Sentinela do Planalto”

A maior resistência dos arenitos da Formação Marília faz com que eles sustentem as áreas mais elevadas do relevo. Enquanto isso, as rochas subjacentes, mais frágeis, são erodidas com maior facilidade ao longo do tempo. Esse contraste contribui para a formação de escarpas e superfícies elevadas, destacando Garça na paisagem regional. É justamente essa posição topográfica elevada que dá origem ao título de “Sentinela do Planalto”.

Um detalhe curioso

Se você já visitou alguma cachoeira da região ou observou cortes de estrada (como na Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros), provavelmente percebeu rochas extremamente duras, muitas vezes tão duras quanto um granito. No entanto, essas rochas são, na verdade, antigos depósitos de areia e cascalho que, ao longo de milhões de anos, foram compactados e cimentados naturalmente pela calcita, adquirindo sua resistência atual.

Nascentes e a importância da preservação ambiental

Além de influenciar o relevo e a formação das cachoeiras, a geologia de Garça também está diretamente ligada à grande quantidade de nascentes de água presentes na região. As rochas da Formação Marília, embora resistentes, possuem fraturas e poros que permitem a infiltração da água da chuva. Parte dessa água fica armazenada no subsolo e, ao encontrar camadas menos permeáveis ou mudanças no relevo, retorna à superfície na forma de nascentes.

Esse processo é favorecido justamente pelo relevo mais elevado da região, que funciona como uma área de recarga natural. Assim, Garça não apenas se destaca na paisagem, mas também desempenha um papel importante na origem de cursos d’água que abastecem áreas vizinhas.

No entanto, para que essas nascentes continuem existindo e mantendo sua qualidade, é fundamental a preservação da vegetação ao seu redor, especialmente das matas ciliares. Essas formações vegetais atuam como uma proteção natural, ajudando a manter o solo estável, reduzindo a erosão, filtrando impurezas e favorecendo a infiltração da água no solo.

Quando a vegetação é removida, o solo fica exposto, aumentando o escoamento superficial e diminuindo a recarga de água subterrânea. Isso pode levar ao assoreamento de rios, à diminuição da vazão das nascentes e à perda da qualidade da água.

Dessa forma, a conservação das áreas naturais não é apenas uma questão ambiental, mas também uma forma de preservar os recursos hídricos e as próprias características geológicas que tornam a paisagem de Garça única.

Conclusão

As paisagens de Garça, com seus morros, escarpas e cachoeiras, são resultado direto de processos geológicos que começaram há dezenas de milhões de anos. A combinação entre clima antigo, deposição sedimentar e processos químicos naturais deu origem a rochas resistentes que sustentam o relevo atual. Dessa forma, a cidade não ocupa uma posição elevada por acaso, mas sim por conta de sua base geológica, que a mantém como uma verdadeira Sentinela do Planalto. Ou seja, a beleza natural da cidade é, literalmente, uma obra do tempo!