Cachoeira do Paredão – O Retorno

 

Um lugar bonito, perto e marcante, porque ficar tanto tempo sem revisitá-lo? Realmente, não tinha razão para ficar anos sem voltar a esta bela cachoeira, ainda mais por ser apenas a 10 km da cidade de Garça. Meu maior problema sempre foi de natureza psicológica, quando ouvia falar em paredão, desconversava, colocava obstáculos, mas a verdade é que não queria enfrentar meus medos e fantasmas.

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Parece até conversa de louco, é que é preciso fazer um parenteses para explicar o porque de resistir a retornar a um lugar interessantíssimo,  e curtir os encantos da Cachoeira do Paredão. A primeira vez que fui, estava sedento por conhecer esta cachoeira, e para descer me deparei com um pequeno paredão seguido de um íngreme barranco, mas foi tranquilo até, para voltar que seria o grande problema, mas sem nenhum acessório a mão, conseguimos nos pendurar em um galho de árvore,  e transpor a parede de pedra para subir de volta.

Não foi tão simples, e por isso logo surgiu a ideia de levar uma corda da próxima vez. Então chegou o fatídico dia, fui para a Cachoeira do Paredão, só que ao invés de ir de dia. Por que não aproveitar a novidade e o horário de verão e ir em um dia de semana mesmo?  Logo após o trabalho, dada a proximidade do lugar, parecia uma ideia tentadora. E vamos levar uma corda? Sim, claro.  Mas no momento só tínhamos um pequeno pedaço corda, muito curto para a finalidade, porém a ânsia de irmos nesta cachoeira era grande, a minha e do amigo Vicente, que naquele dia por sinal fazia aniversário.

Após amarrarmos as bikes na margem do rio, seguimos a pé e para descer, como da outra vez, não tivemos maiores dificuldades, mas o tempo era o nosso grande inimigo, mal tomamos banho de cachoeira, já corremos para voltar e para tentar aproveitar o resto de luz do sol, mas o sol caiu rapidamente e a mata fechada já estava bem escura. A tensão começou a tomar conta do ambiente, meu magro amigo com apenas um pedaço de corda pendurado em um frágil galho de árvore conseguiu graças a Deus e com dificuldade subir. E ainda por cima havíamos amarrado a corda em um lugar errado, mas logo ficou ainda mais escuro, e eu não havia conseguido escalar o obstáculo, e não enxergava mais nada ao redor, nem céu, nem chão, só sabia que não podia me mover muito pois era a parede de pedra de uma lado e de outro barranco íngreme de densa vegetação.

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Então, combinei com o  pirambeiro Vicente de ele sair rápido da mata enquanto enxergar alguma coisa, pois iria escurecer ainda mais e ia ser preciso procurar ajuda. Começou aí uma desesperadora noite para ambos, de uma lado, eu sem poder me mexer porque não via nada e o barranco estava a centímetros de mim, e por outro lado, o Vicente que pela escuridão ficou perdido em um pasto andando a esmo em busca de um sinal para o telefone celular, pois ele não conhecia o lugar, ainda mais a noite. Mas chamar quem, quase ninguém conhecia o lugar, e quem conhecia era por trilhas de bike. A tarefa não era simples, era necessário achar alguém a disposição naquela hora, que conhecia o caminho e ainda teria que levar uma corda.

Após muito tempo, o sinal do celular apareceu, foi feito um contato com o nosso outro amigo de pedal, o Fausto, mas que não conhecia a cachoeira e não sabia como chegar, ele por ventura fez um ligação para a única que pessoa que poderia ajudar naquele momento, o Luis Eduardo, vulgo Rábico. Fez o contato, mas ele estava já em em um churrasco. Apesar dos pesares, ele acabou concordando em pegar a corda e ir até local. Após algumas boas horas, ao chegarem lá ,  o primeiro problema foi achar a fazenda de carro, pois o caminho de bike era totalmente diferente, e depois ainda, foi conseguir a autorização do proprietário para entrar, que na verdade, não ocorreu. Ele não queria deixar entrar de forma alguma, e após insistência e dada a emergência do caso, meus amigos simplesmente foram, e o proprietário tolerou os indesejados visitantes.

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E eu, que havia saído de casa por volta das 18h, já eram 23h horas da noite, não tinha celular e nenhum luzinha sequer para me auxiliar, a situação do Vicente perdido no pasto e  aguardando alguém que poderia ajudar a se  localizar, e tinha mais um grande detalhe nesta história. Por ser seu aniversário  naquele dia, toda sua família estava a espera dele para um jantar festivo. Que presepada!!!   A sensação minha de estar a noite e sozinho em uma mata fechada por horas, sem ver absolutamente nada, e sem poder me mexer quase, foi horrível.  Nessas horas passa de tudo na cabeça, pensava na minha esposa, que estava sem saber por onde eu andava, também foram momentos desesperadas rezas para sair daquela situação, achava que vai ter que passar a noite inteira ali, e que algum animal carnívoro ou peçonhento poderia aproveitar de que eu estava ali indefeso, temia acabar dormindo e ser atacado, foram horas infinitas de angustia, mas também de esperança.

Foi então que de longe comecei a vistar um farol que foi se aproximando aos poucos, minha alma encheu de alegria,  enfim chegaram os meus amigos com uma corda grande e um farol, era tudo eu precisava naquele momento, enfim salvo. Só faltava achar o lugar que estavam as bikes para voltarmos.

Infelizmente, demos trabalho a esses amigos salvadores, incomodamos o pessoal da Fazenda, deixamos preocupados os familiares e ainda por cima, estragamos o aniversário do Vicente. Foi uma experiência e tanta, que jamais esquecerei, e que agradeço de não ter passado a madrugada naquela situação, pois já dava como certo virar o dia lá sem poder se mexer e lutando contra o sono.

Mas como o lugar é incrível, voltar lá de dia e bem preparado não seria problema para mim, mas em um outro dia, com claridade e uma boa corda, desci até a cachoeira, mas na volta, fui o único do grupo que não conseguia subir, chegava até uma certa altura e eu desabava no chão, foram 4 tentativas sem sucesso, já próximo de escurecer, o desespero bateu forte novamente, mas ainda bem, que na última tentativa fui bem sucedido. UFA!!!

Depois de anos dessas ocorrências, resolvi topar voltar lá, pois para minha felicidade, agora existe uma corda dupla para chegar com segurança até o ponto em que começa a descer o paredão e ainda por cima, tem uma escada para descer tranquilamente a parede de pedra e seguir para a cachoeira. Assim ficou muito fácil o acesso, não é? É claro, agora é bem sossegado chegar até lá. Mas não para mim, que ao olhar para aquela lugar, um turbilhão de lembranças veio a mente e como um bloqueio psicológico irracional, preferi não seguir em frente, não descer até a bela cachoeira e aguardar meus amigos em cima, tranquilo que foram se banhar até esta cachoeira repleta de história ainda bem vivas, ao menos na minha cabeça.  E desta vez fomos recepcionados por dezenas de aranhas, muitas de respeito, mas apesar de muitas teias pelo caminho, não nos impediu de seguir em frente.

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Pra ver como o cérebro é  complexo, quando fui da primeira vez, não havia corda alguma e nem escada,  fui e voltei até que de boa. Após os ocorridos, mesmo que o acesso hoje esteja bem facilitado, existe um obstáculo mental que me impediu de chegar até em baixo da cachoeira do paredão, uma prova de como é complicado a mente humana e que o racional e o emocional não falam a mesma língua.

 

Rudi Arena

 

 

 

 

 

 

 

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