Por Rudi Ribeiro Arena e Vicente Aranha Conessa, fundadores do Piramba.
Introdução
No âmbito global, o desafio é evitar o aumento da temperatura do clima, fator que já tem gerado ondas de calor e extremos de seca que compromete a disponibilidade de água. Relatório do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas, das Nações Unidas, mostra que, se a temperatura global subir acima de 1,5°C, em todo o mundo mais de 350 milhões de pessoas ficarão expostas até 2050 a períodos de seca severa.
O consumo de água está ligado não apenas ao consumo doméstico, mas a toda a produção humana, seja agrícola ou industrial. Trata-se do seu uso invisível, um quilo de carne consome até 15 mil litros de água. Uma calça jeans para ser fabricada, pode utilizar-se de até 2 mil litros. Um carro então de 140 mil litros. Caso a gente não cuidar bem das nascentes, a tendência é que a água fique cada vez mais escassa e isso vai afetar não só os cidadãos, mas também os setores produtivos. Não podemos esperar sentir o problema no bolso para começarmos a agir.
A história dos problemas ambientais passa por essa falha de percepção por várias razões: conveniência, ignorância ou apatia. Todo o processo de educação ambiental hoje tem de estar obrigatoriamente centrado na ampliação da percepção, senão não vai mudar coisa alguma. Isso vale para Garça, mas também a todos os demais municípios brasileiros que sofrem do mesmo mal.
E hoje em dia ainda temos um agravante a ser superado para fins da conservação da água, são as mudanças climáticas, que provocam alterações no regime de chuvas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já reconhece esse problema, bem como uma maior duração dos períodos de secas e com temperaturas mais altas.
A tendência é que as chuvas que se infiltram no solo que são as de baixa intensidade e de tempo prolongado tornam-se eventos cada vez mais raros. Quando uma grande quantidade de chuva cai em um pouco tempo, há uma tendência ao escoamento superficial porque o solo atinge sua capacidade de saturação e para de absorver, e esse fenômeno se agrava se as margens das nascentes e dos rios estão degradadas ou com a mata ciliar ausente.
É urgente assegurar a manutenção e recuperar o funcionamento natural do ciclo hidrológico natural de Garça-SP, com impacto positivo também na manutenção dos aquíferos subterrâneos. Porém, é lamentável que o tema não seja prioridade e nem destaque no debate público ou na agenda institucional.
A escassez e a baixa qualidade da água são um problema real e recorrente, os espaços urbanos concentram a maior demanda por água potável, para atender o consumo humano e suas necessidades básicas. Em Garça nunca foi preocupação a abundância e qualidade da água, mas de uns tempos para cá, o tema começou a vir à tona. As nascentes e cursos no município encontram na maioria das vezes, envolvidas em processos degradação ambiental. Devido à sua importância, é premente a necessidade de preservação e recuperação dessas áreas.
Temos que apostar na recuperação e na conservação da natureza para o enfrentamento da crise hídrica. O alerta da comunidade científica é de que a melhor ferramenta para nos ajudar a enfrentar a emergência climática e as crises hídricas e de saúde pública é a recuperação e a conservação da natureza. Ou seja, a resposta está na própria natureza. Em outras palavras, para termos uma chance de futuro neste planeta, precisamos fazer com que a Terra fique um pouco mais parecida com o que era no passado. Precisamos, sobretudo, replantar florestas nativas.
E qual relação das árvores com os rios? Tudo. A ausência de mata ciliar em nascentes e beira de rios afeta diretamente a qualidade e a quantidade da água.
As nascentes de Garça pedem socorro
Garça é uma cidade privilegiada sob o ponto de vista ambiental e hídrico. Localizada em uma região naturalmente rica em recursos naturais, com inúmeras nascentes, grotas, córregos e cursos d’água. É bom lembrar da importância do município na formação de três importantes rios do Centro Oeste Paulista: Rio Tibiriça, Rio do Peixe e o Rio Feio. O município ainda conta com um fator estratégico raríssimo: está inserido na área de influência do Aquífero Guarani, uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do planeta. Poucas cidades podem dizer que receberam tanto da natureza.
Esse privilégio, porém, vem sendo tratado como garantia eterna. E não é.
A natureza fez sua parte ao longo de milhares de anos, moldando o relevo, acumulando água no subsolo e fazendo brotar nascentes que alimentaram rios, abasteceram populações e sustentaram ecossistemas inteiros. O que está em jogo agora é saber se o ser humano fará a sua parte em preservar aquilo que não criou, mas do qual depende completamente.
Existe um levantamento técnico das nascentes de Garça que revela uma realidade preocupante e ainda pouco conhecida da população. A maior parte dessas nascentes está classificada em estado amarelo ou vermelho, o que significa que se encontram em situação de alerta ou de degradação severa. Na prática, isso indica perda de vegetação ao redor, solo compactado, erosão, assoreamento e redução significativa da vazão. Em muitos casos, a nascente ainda existe fisicamente, mas já não cumpre mais sua função ecológica essencial.
Quando uma nascente se degrada ou desaparece, o impacto não é pontual. Não se trata apenas da perda de um olho d’água isolado. Trata-se do enfraquecimento de todo um sistema hídrico que começa na cabeceira, percorre os córregos, alimenta os rios, recarrega os aquíferos e, por fim, chega às torneiras das casas. A água que falta na cidade quase sempre começou a faltar muito antes, lá na nascente que foi ignorada.
Há em Garça uma falsa sensação de segurança em relação à água. Sempre houve água. Quando o nível baixa, perfura-se um poço. Quando a demanda aumenta, busca-se uma solução técnica. Essa lógica cria a ilusão de que a água nasce no poço, quando, na verdade, o poço apenas retira aquilo que foi acumulado ao longo de décadas ou séculos graças à infiltração da água da chuva no solo, processo que depende diretamente das nascentes e da vegetação que as protege.
Quando as nascentes são destruídas, o aquífero deixa de se recarregar no mesmo ritmo. O efeito não é imediato, mas é inevitável. A conta chega de forma lenta e silenciosa e, quando se torna visível, já exige soluções caras, emergenciais e muitas vezes insuficientes. O ano de 2025 deixou isso claro. A falta d’água deixou de ser uma hipótese distante e passou a fazer parte da rotina de muitos moradores. Ainda assim, o debate público seguiu concentrado nos efeitos, e não nas causas.
As nascentes de Garça sofrem com o processo de ocupação e uso irregular do solo, e o resultado foi a degradação de sua cobertura vegetal, isso compromete de forma direta a qualidade de suas águas. Ao mesmo tempo, falta ao poder público e da sociedade em geral a percepção da necessidade do cuidado adequado desses corpos d’água. É de suma importância o envolvimento dos atores sociais na criação de programas de educação ambiental, e também para a recuperação das áreas degradadas, bem como se atentar para as boas práticas de descartes de lixo urbano, aplicar as restrições ao uso e ocupação de áreas de preservação permanente e, dessa forma, assegurar a qualidade dessas águas.
A degradação das nascentes não acontece por acaso. Ela é resultado de desmatamento, ocupação desordenada, avanço urbano sem planejamento, pisoteio, aterramento, canalização e, sobretudo, descuido. Em muitos casos, não é má-fé, mas indiferença. A nascente vai sendo enfraquecida aos poucos, até que um dia deixa de existir. Quando isso acontece, não há obra de engenharia capaz de substituí-la com a mesma eficiência, durabilidade e baixo custo.
É justamente diante desse cenário que iniciativas da sociedade civil ganham relevância. O grupo Piramba, ao manifestar a intenção de adotar uma nascente no município, não o faz como um gesto simbólico ou isolado. A proposta é assumir um compromisso concreto com a recuperação ambiental e, a partir dessa experiência prática, ampliar o debate para toda a cidade.
A intenção é que essa adoção seja apenas o primeiro passo de algo maior. A partir dela, pretende-se lançar, em 2026, uma campanha pública de conscientização e mobilização social, convidando cidadãos, empresas, instituições e proprietários a também adotarem nascentes, contribuindo para sua recuperação e preservação. Essa campanha deverá se chamar “Pacto pela Água”, justamente para reforçar a ideia de compromisso coletivo com o futuro hídrico de Garça.
A Lei 5.525/2023 que instituiu o Programa de Recuperação de Áreas Degradadas “Adote uma Nascente” continua a ser uma ilustre desconhecida. É preciso divulgar e conhecer melhor o funcionamento dessa Lei para a sociedade civil organizada do município bem como as empresas garcenses, quem sabe assim, todos possam colaborar de forma concreta para mudarmos essa situação. Essa Lei prevê instrumentos para que toda a população consiga colaborar na recuperação das nascentes degradadas. Chegou o momento de que só a conscientização não basta, é preciso agir e com a urgência necessária.
A proposta do Pacto pela Água não é substituir o papel do Poder Público, mas somar esforços. A preservação das nascentes exige cooperação. Exige que a sociedade civil se envolva, que as empresas compreendam seu papel social e ambiental e que o Poder Público atue como parceiro, facilitador e apoiador de iniciativas que protejam aquilo que é essencial para todos.
Garça tem sorte. Muita sorte. Mas sorte não é garantia de futuro. Nenhuma cidade, por mais privilegiada que seja, resiste à destruição sistemática de suas fontes naturais de água. A natureza oferece, mas não sustenta sozinha. Sem cuidado, sem planejamento e sem consciência coletiva, até os territórios mais ricos em água se tornam vulneráveis.
Conclusão
Preservar nascentes não é um discurso ambiental distante ou ideológico. É uma atitude prática, concreta e urgente. É garantir infiltração da água no solo, reduzir assoreamento, manter a vazão dos córregos, proteger o aquífero e assegurar que as próximas gerações tenham acesso a um recurso que hoje parece abundante, mas que pode se tornar escasso.
A responsabilidade não é apenas de governos, técnicos ou ambientalistas. É de todos que vivem aqui, produzem aqui, consomem água todos os dias e desejam continuar chamando Garça de lar. Cada nascente preservada beneficia toda a cidade. Cada nascente perdida empobrece o futuro coletivo. A recuperação de nascentes e matas ciliares tem o potencial de melhorar o microclima do município com melhor equilíbrio da umidade e temperatura, além resultar em mais abundância de água e com maior qualidade desta.
Da perspectiva do poder público, existe uma necessidade urgente para que os gestores sejam qualificados para lidarem com as novas características que as mudanças climáticas trouxeram para o planeta e investir em um banco de dados robustos acerca das bacias hidrográficas e ecossistemas aquáticos.
Mas a realidade e a regra é o desmatamento das áreas de preservação permanente e a indiferença aos problemas de natureza ambiental, isso resulta em nascentes que perdem não apenas a sua biodiversidade, mas que sofrem também com a redução da absorção de nutrientes no solo, a redução na umidade relativa do ar e no aumento da temperatura local.
Falta planejamento a respeito do uso e ocupação do solo. O uso irregular do solo é uma grande ameaça às nascentes. A constante retirada de mata ciliar em áreas sujeitas a erosão e assoreamento estão minando a saúde de nossas nascentes. A ocupação irregular dessas áreas decorre de diversos fatores, como a utilização do solo para rebanho bovino, algo comum ver em Garça, e que causa o assoreamento de nascentes e córregos. Infelizmente as autoridades públicas são omissas na fiscalização e em exigir o cumprimento da legislação ambiental.
A situação é séria e os desafios são imensos. Nós não mudamos nossos comportamentos e a insistência acaba emir atrás de soluções por meio de muita engenharia e não nos damos conta de que o mais importante é dar a atenção necessária à natureza.
É evidente que restaurar parte da Mata Atlântica que aqui existia em Garça pode garantir o futuro de nossas gerações que aqui viverão. Os principais caminhos viáveis no longo prazo são as soluções baseadas na natureza. Conservar as florestas não é simplesmente preservar a flora e a fauna, é também a nossa única possibilidade de garantir o bem mais precioso e vital para a espécie humana, que é a água. Só furar poço artesiano é agir de forma reativa, medida imediatista que consome a reserva de água subterrânea sem resolver o problema a longo prazo. É preciso ir além, ir na raiz do problema. O município precisa se preparar para os desafios hídricos do município iminentes. Como já se diz o antigo e sábio ditado: “prevenir é melhor do que remediar”.
Para impedir que a situação se agrave ainda mais, é necessária uma evolução da sociedade como um todo do ponto de visto ético, moral e filosófico. É preciso ir além do avanço científico e tecnológico. As mudanças climáticas e a escassez de água cada vez mais comum revelaram a maior falha econômica e social da espécie humana, pois evidencia que inteligência de sobrevivência do ser humano não logrou êxito do ponto de vista estratégico e que permanece no erro de forma insistente. Continua a ignorar todos os sinais que natureza já envia. Já passou da hora de mudarmos essa situação.
Garça ainda tem água. Garça ainda tem nascentes. Garça ainda tem tempo. Mas o tempo não é infinito. E a natureza, por mais generosa que seja, não consegue se defender sozinha.
Ainda que muitas propriedades rurais de Garça levem a sério projetos de recuperação de Áreas de Preservação Permanentes (APPs), a realidade é que a grande maioria está na contramão e não tem nenhum compromisso com a conservação das áreas de nascentes. Ou seja, o a conta não bate e o saldo ambiental é negativo para o município. É preciso ações concretas e a união de todos para mudarmos essa realidade, é possível, primeiro é preciso acreditar em mudanças, para em seguida agir. É isso que o Piramba propõe e se dispõe a fazer, mas com a consciência de que sozinho tudo fica mais difícil e distante de atingir os objetivos. Por isso, é vital um pacto pela preservação e recuperação das nascentes do município de Garça, antes que seja tarde demais.

